Quando a Vida Perde o Sentido: Como Atravessar os Dias Vazios

Há uma fase da vida em que o homem acorda e percebe que o que antes dava sentido não dá mais. O trabalho virou obrigação. A família, que ele sustenta, parece à distância. Os amigos sumiram no caminho. O que era prazer virou tarefa, e as horas do fim de semana ficam longas demais. Ele continua funcionando: levanta, cumpre, responde, sorri quando precisa. Por dentro, algo se apagou. Poucos falam disso em voz alta. Os homens, em particular, aprenderam a engolir, a “dar conta”, a transformar tudo em trabalho, em irritação, em silêncio ou em bebida. Mas esse vazio é uma das experiências mais humanas que existem, tem nome, tem explicação e, sobretudo, tem caminho.

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Padma Samadhi

10/9/202612 min read

Quando a Vida Perde o Sentido: Como Atravessar os Dias Vazios

Se você está em sofrimento agora, ou pensando em se machucar ou em morrer, não espere terminar de ler.

  • CVV (Centro de Valorização da Vida): ligue 188. É gratuito, funciona 24 horas por dia, todos os dias, em todo o Brasil. Também há chat e e-mail em cvv.org.br.

  • Em risco imediato: SAMU, 192, ou Bombeiros, 193. Você também pode ir a uma UPA (24 horas) ou ao pronto-socorro mais próximo.

  • Procure uma pessoa de confiança hoje e diga como você está. Não fique sozinho.

Há quem queira ouvir você. Existe tratamento, e ele funciona.

Há uma fase da vida em que o homem acorda e percebe que o que antes dava sentido não dá mais. O trabalho virou obrigação. A família, que ele sustenta, parece à distância. Os amigos sumiram no caminho. O que era prazer virou tarefa, e as horas do fim de semana ficam longas demais. Ele continua funcionando: levanta, cumpre, responde, sorri quando precisa. Por dentro, algo se apagou.

Poucos falam disso em voz alta. Os homens, em particular, aprenderam a engolir, a “dar conta”, a transformar tudo em trabalho, em irritação, em silêncio ou em bebida. Mas esse vazio é uma das experiências mais humanas que existem, tem nome, tem explicação e, sobretudo, tem caminho.

Este artigo conversa sobre isso com cuidado e sem conselhos fáceis. Vamos entender como o vazio aparece no homem, quando ele pode ser depressão, o que fazer, como ajudar quem amamos e onde buscar apoio no Brasil. É o texto mais delicado da nossa série, e foi escrito com um propósito simples: que você saiba que não está sozinho e que há ajuda. Tudo em linguagem educativa e respeitosa.

O Vazio É Comum, e Tem Causas

A perda de sentido costuma chegar depois de uma mudança, ou depois de uma longa soma de cansaços:

  • o esgotamento do trabalho, como vimos no artigo sobre burnout;

  • a aposentadoria ou a perda do emprego, que levam junto o papel e a rotina;

  • uma separação, um divórcio ou a saída dos filhos de casa;

  • um luto, a perda de um pai, de um amigo, de um filho;

  • uma doença, ou a percepção dos limites do corpo e da idade;

  • dívidas, fracassos, vergonha;

  • anos de vida em modo automático, sem espaço para o que importa.

No artigo sobre o ikigai, vimos que a ausência de propósito costuma ser desencadeada por aposentadoria, luto ou perda de saúde, e que pode sinalizar vulnerabilidade. Mas vimos também que o sentido pode ser reconstruído, em pequenas coisas.

Como o Vazio Aparece no Homem

Muita gente imagina a depressão como tristeza e choro. Nos homens, ela costuma se parecer com outras coisas, e é justamente por isso que passa despercebida.

Pesquisas e especialistas descrevem que os homens têm mais probabilidade de apresentar sintomas externalizantes: irritabilidade, raiva, explosões, impulsividade, comportamento de risco e aumento do consumo de álcool ou de outras substâncias. Uma psicóloga entrevistada explicou que isso se relaciona com a forma como os homens são socializados desde a infância: aprendem a esconder o choro e o sofrimento. Um estudo indicou que a chamada “depressão masculina” aparece em pouco mais de um terço dos homens afetados, e em cerca de quatro em cada dez há uma mistura de sintomas externalizantes e internalizantes. Em outros, os sinais são os mais conhecidos.

Entre os sinais que merecem atenção, e que muitas vezes passam por “mau humor” ou “estresse”:

  • irritação constante ou explosões de raiva sem proporção;

  • trabalhar ou treinar sem parar, como fuga;

  • beber mais, ou usar outras substâncias, para aguentar ou desligar;

  • comportamentos de risco, como dirigir de forma imprudente;

  • dores físicas sem causa clara: de cabeça, no estômago, nas costas;

  • isolamento, afastar-se de amigos e da família;

  • cansaço profundo, sono ruim, falta de concentração;

  • perda de interesse por coisas que antes davam prazer;

  • sentimentos de inutilidade, de culpa, de peso para os outros;

  • pensamentos sobre a morte.

Nem toda raiva ou todo cansaço é depressão. Todos passamos por fases de pouca paciência. A diferença está na duração (semanas), na intensidade e no prejuízo que causa na vida. Muitos desses sinais também podem ter causas físicas, como apneia do sono, problemas de tireoide, anemia, efeito de remédios, alterações hormonais ou excesso de álcool. Por isso, o primeiro passo é procurar um profissional, que avalia o conjunto.

O Que os Números Dizem, Com Cuidado

Falar de números exige respeito, porque por trás de cada um há uma pessoa e uma família. Mas eles ajudam a entender por que este assunto importa.

No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 79% das mortes por suicídio ocorrem entre homens. Em 2019, a taxa entre eles foi de 10,7 por 100 mil habitantes, contra 2,9 entre as mulheres, um risco cerca de 3,8 vezes maior. Em 2023, o país registrou mais de 16 mil mortes por suicídio.

Ao mesmo tempo, há algo importante a dizer: o suicídio é, em grande parte, evitável. Estimativas internacionais indicam que a maioria dos casos poderia ser prevenida. A depressão está associada a cerca de metade dos casos, e os sintomas externalizantes dos homens, a raiva e o uso de álcool, são fatores de risco que, se reconhecidos cedo, abrem a porta para o cuidado.

E aqui está o ponto central: os homens procuram menos ajuda. Estudos mostram que eles são menos propensos a buscar atendimento e mais propensos a abandonar a terapia, e que apenas cerca de 30% dos homens com sintomas de depressão procuram um profissional, contra 50% das mulheres. Isso não é fraqueza individual: é fruto de uma cultura que ensina que pedir ajuda é perder. É uma ideia que precisa ser desmontada, porque ela custa vidas.

Se Você Está Pensando em Morrer

Se esse pensamento aparece para você, quero dizer algumas coisas com clareza e carinho.

A sua dor é real, e ela merece cuidado. Quem passa por esse sofrimento muitas vezes não deseja, no fundo, deixar de viver, e sim deixar de sofrer: profissionais e familiares que acompanham essas situações dizem justamente isso. A dor pode parecer eterna e sem saída, mas essa sensação faz parte do sofrimento, e ela pode mudar com tratamento e apoio. A morte não é a única forma de a dor acabar.

O que fazer agora:

  1. Fale com alguém hoje. Ligue para o 188 (CVV): é gratuito, sigiloso, 24 horas, e quem atende é alguém treinado para ouvir sem julgar. Se preferir escrever, há chat e e-mail em cvv.org.br.

  2. Se você sente que pode se machucar nas próximas horas, ligue 192 (SAMU) ou 193 (Bombeiros), ou vá a uma UPA ou a um pronto-socorro. Diga que é uma urgência de saúde mental.

  3. Conte a uma pessoa de confiança: um familiar, um amigo, um colega, um líder religioso. Peça que fique com você.

  4. Não fique sozinho. Procure estar perto de alguém até passar o momento mais intenso.

  5. Evite o álcool e outras substâncias. Eles pioram o desespero e a impulsividade.

  6. Peça ajuda para ficar longe de qualquer coisa que possa servir para se machucar, e deixe que alguém de confiança cuide disso.

  7. Procure atendimento de saúde mental o quanto antes: na UBS, no CAPS ou com um psicólogo ou psiquiatra.

Pedir ajuda não é fraqueza e não é “dar trabalho”. É o ato mais corajoso de quem quer continuar.

Se Alguém Que Você Ama Está Sofrendo

Se você é esposa, filho, irmão, amigo ou colega de um homem que parece estar mal, saiba que pode fazer muita diferença.

1. Pergunte, com carinho e diretamente. “Tenho notado que você anda muito para baixo. Você tem pensado em se machucar ou em morrer?” Existe um mito de que falar sobre suicídio “põe a ideia na cabeça”. É falso. As evidências mostram que perguntar sobre pensamentos suicidas não aumenta esses pensamentos nem as tentativas, e as campanhas de prevenção apontam esse como um dos mitos mais prejudiciais. Ao conversar, você ajuda a pessoa a encontrar alternativas e ajuda profissional.

2. Escute, sem julgar. A pessoa em sofrimento se sente isolada. Uma pergunta simples, como “tem algo que eu possa fazer para te ajudar?”, pode abrir espaço para desabafar. Ter alguém disposto a ouvir e a compreender os sentimentos fortalece o desejo de viver.

3. Evite frases que minimizam. “Vai ficar tudo bem”, “você tem tanta coisa boa”, “pense nos seus filhos”, “é só pensar positivo”. Mesmo bem-intencionadas, elas podem fazer a pessoa se sentir ainda mais incompreendida. Diga: “Estou aqui. Você não está sozinho. Vamos buscar ajuda juntos.”

4. Fique junto e ajude a buscar um profissional. Ofereça-se para ligar, para marcar a consulta, para acompanhar. Em risco imediato, ligue 192.

5. Atenção aos sinais de alerta: falar em morrer ou em ser um peso, despedidas fora do comum, aumento de álcool, comportamento muito arriscado, isolamento súbito, uma tentativa anterior. Ter tentado antes é o principal fator de risco.

6. Cuide de você também. Quem acompanha alguém em sofrimento também precisa de apoio. O 188 atende a todos que precisam conversar. E, para quem perdeu alguém, o CVV mantém grupos gratuitos de apoio a sobreviventes do suicídio, em várias cidades.

Existe Tratamento, e Ele Funciona

A depressão é uma condição de saúde, e tem tratamento. Dependendo de cada caso, pode envolver psicoterapia, medicação, ou ambas, junto com mudanças de rotina. Só um profissional pode indicar o que é melhor para você.

Algumas informações que podem ajudar a dar o primeiro passo:

  • Não é preciso “chegar no fundo” para pedir ajuda. Quanto mais cedo, melhor.

  • A psicoterapia tem eficácia comprovada. Abordagens como a terapia cognitivo-comportamental e a terapia de aceitação e compromisso têm respaldo; uma meta-análise com pesquisadores brasileiros, que reuniu 48 ensaios clínicos, encontrou que a terapia de aceitação e compromisso em grupo pode ser eficaz para sintomas de ansiedade e depressão.

  • Medicação pode ser necessária, e não é sinal de fraqueza. É prescrita por um médico, com acompanhamento.

  • O corpo ajuda. Sono, luz da manhã, movimento, boa alimentação, redução do álcool: tudo isso, que vimos nos artigos anteriores, é complemento, e não substituto, do tratamento.

Onde buscar ajuda no Brasil:

  • UBS (Unidade Básica de Saúde): é a porta de entrada do SUS. Procure e diga que está passando por sofrimento emocional. A equipe pode acolher, avaliar e encaminhar.

  • CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): serviço público de saúde mental. Em cidades maiores existem os CAPS III, que funcionam 24 horas, inclusive nos fins de semana. Em cidades menores, há CAPS que funcionam em horário diurno. Pergunte na UBS ou na Secretaria de Saúde do seu município qual é o mais próximo.

  • UPA e pronto-socorro: para crises e urgências, 24 horas.

  • CVV, 188: apoio emocional gratuito, 24 horas, por telefone, chat e e-mail.

  • Psicólogos e psiquiatras particulares ou pelo plano de saúde, e clínicas-escola de cursos de Psicologia, que costumam oferecer atendimento a custo baixo.

Atravessar os Dias Vazios: Pequenos Passos, com Ajuda

O que segue não substitui o tratamento; é um complemento para quem está em acompanhamento, ou procurando um.

1. Reduza a meta para o tamanho do dia. No sofrimento, a vida inteira pesa. Pense só em hoje. Um dia de cada vez, uma tarefa de cada vez.

2. Proteja o sono e o corpo. Horários regulares, luz da manhã, movimento leve, comida de verdade. Sem exageros.

3. Evite o álcool. Ele parece aliviar e piora o humor, o sono e a impulsividade.

4. Mantenha um fio de ligação. Uma mensagem, um café, uma ligação por semana. O isolamento alimenta a dor.

5. Não tome decisões irreversíveis no pior momento. Separação, demissão, venda de bens: espere o quadro melhorar e converse com alguém.

6. Procure uma pequena fonte de sentido, sem pressão. Como vimos no ikigai, o sentido nasce de coisas pequenas: uma planta, um bicho, um amigo, um hobby, um neto, uma música. Não precisa ser grandioso.

7. Faça um “kit de apoio”. Escreva num papel os telefones (188, 192), o nome de duas pessoas de confiança, o endereço da UBS e do CAPS mais próximos. Deixe à mão.

O Que as Tradições Dizem

O taoísmo ensina que tudo tem ciclos: ao inverno segue a primavera, à noite segue o dia. A vida tem vales, e o vale é parte da montanha. Nenhum estado dura para sempre, inclusive os mais escuros.

Viktor Frankl, psiquiatra austríaco que sobreviveu a campos de concentração, propôs que a busca de sentido é uma força central do ser humano, e que mesmo em condições terríveis é possível encontrar um “para quê”. Os místicos de várias tradições falaram de “noites escuras da alma”, períodos de vazio que, com o tempo e com apoio, podem se transformar.

A cultura japonesa, com o ikigai (a razão de levantar), o kaizen (os pequenos passos) e o wabi-sabi (a aceitação do imperfeito e do passageiro), oferece ferramentas valiosas para a reconstrução.

Um cuidado indispensável: nenhuma prática espiritual, filosófica ou corporal substitui o tratamento de saúde mental. As tradições mais sábias sempre reconheceram o valor do médico e do cuidado. A prática é parceira do tratamento, e não sua substituta.

Assista Também no Canal

O canal Katana Control tem conteúdos que conversam com este tema, de forma simples e direta:

Todos estão em youtube.com/@KatanaControl.

Resumo: Quando Procurar Ajuda

Procure atendimento imediato (192, 193, UPA ou pronto-socorro) se:

  • você está pensando em se machucar ou em morrer, e sente que pode agir;

  • há dor ou aperto no peito, falta de ar, desmaio ou fraqueza em um lado do corpo.

Fale com o CVV (188, 24 horas) se:

  • você precisa conversar, mesmo que não saiba por quê;

  • o sofrimento está pesado demais para carregar sozinho.

Procure a UBS, o CAPS ou um profissional de saúde mental se:

  • a tristeza, o vazio, a irritação ou o cansaço duram semanas;

  • você bebe mais para aguentar;

  • perdeu o interesse por quase tudo;

  • tem pensamentos de que a vida não vale a pena, ou de ser um peso para os outros.

O Corpo Como Território de Cuidado

Quem atravessa um período de sofrimento profundo precisa, antes de tudo, de cuidado de saúde mental. Isso vem primeiro. Em um segundo momento, quando você estiver em acompanhamento e mais estável, o trabalho corporal conduzido com ética e formação pode ser um complemento: um espaço seguro, de 30 minutos ou de uma hora, com hora marcada, para respirar, soltar a tensão e voltar a perceber o corpo, sem precisar provar nada. A conversa prévia, adiantada por mensagem, é o momento de contar o que você está vivendo.

O foco está no relaxamento, na consciência corporal e no autoconhecimento. É uma abordagem complementar de bem-estar, que não trata depressão, não trata sofrimento emocional grave e não substitui o acompanhamento médico e psicológico.

Para Quando Você Estiver Mais Firme

Este bloco é para quem está bem, ou em acompanhamento. Se você está em crise, volte ao topo do artigo e ligue 188.

Quando a vida retoma o chão, muitos homens querem voltar a cuidar do corpo, em pequenos treinos diários. O Katana Control é um método organizado para isso: cuidar do ritmo e do controle do próprio corpo, com constância e discrição. Ele reúne:

  • O aplicativo Ritmo Diário: sessões curtas de treino, com a explicação de cada técnica, registro diário e acompanhamento do seu progresso, visível só para você.

  • O curso online e o ebook Katana Control — O método completo para o controle ejaculatório, para estudar no seu ritmo.

O método trabalha o assoalho pélvico, a respiração e a atenção plena, no espírito do kaizen: o caminho é de meses, sem imediatismo. Desacelerar rende mais.

Importante: o Katana Control é uma abordagem complementar de cuidado com o corpo, não constitui prática médica, não trata depressão nem sofrimento emocional e não substitui o médico, o psicólogo ou o psiquiatra. Conteúdo para homens maiores de 18 anos.

Conheça o método em katanacontrol.com

Um Dia de Cada Vez

Os mestres do Tao diziam que, para quem sabe esperar, até a água mais turva se aclara. Mas há um segredo que eles não diziam em voz alta: ninguém precisa esperar sozinho.

Se você leu até aqui e se reconheceu em alguma parte, faça hoje uma coisa pequena. Ligue para o 188 e apenas diga: “preciso conversar.” Ou mande uma mensagem a alguém e escreva: “não estou bem. Posso falar com você?” Ou marque uma consulta na UBS do seu bairro.

Os dias vazios não são o fim da história. Para muitos homens, são o ponto em que a história muda: quando a máscara de quem dá conta de tudo cai, e começa a aparecer alguém que merece cuidado. Pedir ajuda não é desistir. É o primeiro passo de quem quer ficar.

Este artigo faz parte da série de conteúdos educativos do blog Práticas Ancestrais. Para conhecer as sessões de: A Verdadeira Massagem Tântrica com a terapeuta Padma Samadhi que é técnica em massoterapia, formada pelo Senac, e atua com terapias corporais desde 2016. São mais de dezesseis mil atendimentos presenciais.
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