Confiança e Rendição: O Que o Tantra e Jesus Ensinam Sobre o Que o Ego Mais Teme
Existe uma palavra que o ego masculino — com toda a sua construção cuidadosa de décadas — resiste mais do que qualquer outra. Não é "fraqueza". Não é "fracasso". Não é "vulnerabilidade", embora todas essas já provoquem resistência suficiente. A palavra é rendição.
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Val Araújo
7/4/20267 min read


Confiança e Rendição: O Que o Tantra e Jesus Ensinam Sobre o Que o Ego Mais Teme
Existe uma palavra que o ego masculino — com toda a sua construção cuidadosa de décadas — resiste mais do que qualquer outra.
Não é "fraqueza". Não é "fracasso". Não é "vulnerabilidade", embora todas essas já provoquem resistência suficiente.
A palavra é rendição.
Osho, comentando o Evangelho de Tomé em A Semente de Mostarda, identifica a rendição como a chave que abre todas as outras portas — e a ausência de rendição como o obstáculo central que mantém o homem separado de si mesmo, dos outros e do que as tradições espirituais chamam pelo nome de sagrado.
"Por três ou quatro séculos, o homem foi ensinado a ser individualista, egoísta; a não se render, mas a lutar sempre; a não obedecer, mas a rebelar-se; o homem foi ensinado a não acreditar, mas sim a duvidar."
Esse ensinamento foi necessário em parte — produziu a ciência, produziu o pensamento crítico, produziu a democracia. Mas produziu também um homem que não consegue se abrir completamente para nada. Que mantém sempre uma reserva estratégica de ceticismo. Que calcula antes de confiar. Que negocia onde deveria se entregar.
Este artigo é sobre o que muda quando um homem aprende — gradualmente, no próprio corpo — o que a rendição genuína é.
O Que Rendição Não É
Antes de explorar o que a rendição é, é fundamental desfazer o equívoco mais comum sobre ela.
Rendição não é submissão passiva. Não é o abandono da própria vontade ou da capacidade de discernimento. Não é a ingenuidade de quem acredita em tudo sem questionar.
O discípulo que Osho descreve — aquele que pode receber o ensinamento de Jesus — não é alguém fraco, sem personalidade, que engole tudo que lhe é dito. É alguém que chegou ao ponto de reconhecer os limites do que pode ser conhecido pela dúvida, pelo cálculo, pelo controle.
"Com um mestre, é preciso abandonar todas as defesas, completamente. Até mesmo diante de um amante você pode ter suas defesas; com o amado, você pode não estar totalmente aberto. Mas com o mestre, a abertura tem de ser total; do contrário, nada acontecerá."
Abertura total. Isso não é fraqueza — é uma das formas mais exigentes de coragem. Porque o que é rendido não é a capacidade de pensar — é a ilusão de que o pensamento pode alcançar tudo. O que é rendido não é o self — é a couraça que o self construiu para se proteger.
Por Que o Ego Não Consegue Se Render
Osho identifica com precisão por que a rendição é tão difícil para o homem moderno — e especialmente para o homem instruído, bem-sucedido, intelectualmente sofisticado:
"Quanto mais a pessoa for intelectualmente capaz, menor será a sua confiança. Quanto menos você for capaz intelectualmente, maior será a sua confiança."
Isso não é um elogio à ignorância. É uma observação sobre a relação entre o intelecto e a abertura.
O intelecto é extraordinariamente hábil em construir defesas. Em encontrar objeções. Em criar razões para não confiar. Em manter o mundo a uma distância segura onde ele pode ser analisado, categorizado e controlado. E enquanto essa capacidade analítica é valiosa em inúmeros contextos, ela é precisamente o que impede a experiência que o Tantra — e Jesus, e Buda, e Osho — apontam como o coração de tudo.
Osho usa a imagem do camponês que confia. "Um camponês confia; ele não tem nenhuma necessidade de duvidar. Coloca as sementes no campo e acredita que elas brotarão. Por viver com as árvores, com as plantas, com os rios, com as montanhas, não tem necessidade de duvidar."
E então oferece a observação que ressoa profundamente: "Quando você vai para as montanhas, repentinamente sente-se em êxtase. De onde vem o êxtase? Das montanhas? Não! Vem de você que colocou suas defesas de lado, que não sente mais medo."
As montanhas não atacam. As árvores não traem. E na presença da natureza — onde as defesas são desnecessárias — o homem experiencia algo que normalmente bloqueia: o próprio estado natural de abertura.
A Confiança Como Prática
Krishnananda Trobe, em O Amor Não É um Jogo de Criança, descreve por que a confiança é tão difícil: a criança emocional, formada por feridas de abandono, rejeição ou traição, instalou no sistema nervoso a crença de que abrir-se é perigoso. Que confiar é ingênuo. Que a única segurança está no controle.
Essa crença é completamente compreensível dado o que a originou. O problema é que ela opera no presente como se o presente fosse o passado — mantendo fechado um coração que não tem mais as mesmas razões para se fechar.
"Se você vier a um mestre como um paciente, então não compreenderá nada, porque o mestre não é um psiquiatra", escreve Osho. "Quando você pergunta como se fosse uma criança inocente que não sabe, quando sua ignorância é genuína — só então algo pode ser transmitido."
A ignorância genuína. Não a ignorância como ausência de informação — mas a abertura de quem chegou ao limite do que a informação pode fazer, e está disposto a receber algo de uma dimensão que a mente analítica não alcança.
Isso é o que o trabalho tântrico, em seu núcleo mais profundo, pratica. Não como doutrina ou crença — mas como experiência corporal direta. A mesa de massagem tântrica é, entre outras coisas, um espaço onde o homem é convidado — sem exigência, sem pressão — a experimentar o que acontece quando as defesas baixam.
O que a Rendição Revela
Osho descreve o que os dois pescadores de Galileia fizeram quando Jesus os chamou. Eles deixaram as redes e foram. Sem fazer perguntas. Sem calcular o custo-benefício. Sem garantias.
E então, quando estavam saindo da cidade, um homem veio correndo e disse que o pai de um deles havia morrido subitamente. "Podemos ir enterrar nosso pai?" Jesus respondeu: "Não se preocupem com o morto. Existem mortos suficientes na sua cidade. Venham e sigam-me." E eles seguiram sem olhar para trás.
Osho comenta: "Confiança significa não olhar para trás. Confiança significa não mais voltar."
Essa é a rendição que o Tantra propõe — não o abandono do discernimento ou da responsabilidade, mas o abandono da compulsão de estar sempre olhando para trás. De viver com um pé no presente e o outro no passado. De nunca se entregar completamente ao que está happening agora porque sempre há alguma reserva, alguma saída de emergência, alguma forma de não se comprometer por completo.
O Tantra clássico descreve estados meditativos profundos que emergem quando essa rendição acontece. A consciência que se expande quando não está mais sendo contida pelas paredes da defesa. O prazer que se aprofunda quando o corpo não está mais gastando energia para se proteger. A intimidade que se torna possível quando não há mais uma parte do ser em guarda permanente.
O Terceiro Olho: Ver com Outros Olhos
Osho introduz um conceito que conecta a rendição com uma forma diferente de percepção — o terceiro olho.
"Quando você fecha esses olhos, que olham para fora, o que acontece com a energia que estava saindo por eles? Começa a mover-se para dentro. E essa energia aquece o terceiro olho. O terceiro olho não é algo físico. É justamente essa energia que estava se movendo para os objetos exteriores e que agora retorna à fonte."
O terceiro olho não é um órgão místico mágico. É o que acontece com a percepção quando a energia que estava constantemente voltada para fora — para análise, para controle, para vigilância — começa a se voltar para dentro.
O que se percebe quando se olha de dentro é completamente diferente do que se vê de fora. Não melhores estratégias, não mais informações — mas uma qualidade de presença que a vigilância externa nunca permite.
Mantak Chia, no sistema taoísta, descreve a pineal — a glândula que fica no centro do cérebro e que a tradição chama de "terceiro olho" — como profundamente conectada à energia sexual. Quando a energia sexual é cultivada em vez de desperdiçada, quando circula pelo corpo em vez de explodir numa descarga, ela eventualmente alimenta o sistema nervoso central de formas que produzem exatamente o tipo de percepção expandida que Osho descreve.
A rendição da energia sexual — o não-derramamento automático, a escolha consciente de cultivar em vez de gastar — é uma forma de rendição que produz efeitos concretos na qualidade da percepção e da consciência.
Tantra e Rendição: A Prática Concreta
O que tudo isso significa na prática da massagem tântrica?
A sessão tântrica é, entre outras coisas, um treinamento de rendição. Não de submissão — mas do tipo específico de entrega que Osho descreve: a disposição de estar completamente presente numa experiência sem controlar onde ela vai.
Para muitos homens, esse é o aspecto mais desafiador de todo o trabalho. Não a intensidade das sensações — mas a necessidade de simplesmente receber, de não ter nada a fazer, de não ter nada a provar, de não dirigir a experiência.
A mente quere saber o que vem a seguir. O ego quere estar no controle. O sistema nervoso que foi treinado a estar sempre em guarda resiste à abertura que a sessão convida.
E é exatamente nessa resistência — e no que acontece quando ela começa a ceder — que o trabalho real acontece.
Quando o corpo aprende que é seguro se abrir, a rendição deixa de ser uma ideia abstrata. Torna-se uma experiência somática — inscrita no tecido, no sistema nervoso, na qualidade de presença que o homem carrega para fora da sessão.
E a partir daí, a confiança que Osho descreve — a do camponês que planta sem saber exatamente como a semente vai germinar, mas que sabe que vai — começa a ser possível. Não como fé religiosa. Como experiência verificada no próprio corpo.
Sou a Val Araújo terapeuta tântrica com 12 anos de prática e mais de 14 mil atendimentos presenciais em Rio Claro, SP. Meu trabalho cria espaços onde a rendição genuína se torna possível — no corpo, na respiração, no encontro com o próprio ser.
Centro de Práticas Ancestrais
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